futre

O homem é uma vontade, uma força e um conhecimento que tendem para o infinito. Paulo Futre leva a frase a sério. Anota, concentra-se, interioriza e faz por segui-la. Quebra barreiras, abre mundos e vai à aventura. É levado por impulsos, por paixões e por vontades. Sempre gostou de viver no arame, no fio, entre extremos. Sente a adrenalina invadir-lhe a alma e transbordar por todos os poros, segue solto, livre, sem amarras. É sustentado pelo ímpeto, pelo sonho e pela ambição. Com talento. Porque ninguém consegue um lugar na História sem ter arte. Joga, galga terreno, arrasta adversários, carrega companheiros e rompe rumo ao infinito.

O cabelo à Futre desapareceu há mais de dez anos, as maravilhosas botas não saltam da prateleira e o corpo já não reage como antes aos estímulos da mente. Mas, sempre e para sempre, Futre anda numa roda-viva. Dá-se a conhecer, desvenda segredos e diverte quem o ouve. As histórias repetem-se, Futre conta e reconta, mas há sempre interesse para as ouvir. Sem cerimónias, voltou e pronto: é outra vez um fenómeno. Faz digressões pelo país e, como antes, ouve os flashes disparar. E dá mil e uma entrevistas. Em que exige ser tratado por tu…

“SOU IMPULSIVO E DEFENDO AQUILO EM QUE ACREDITO“
P: Paulinho, Paulo Futre ou El Portugués?

PAULO FUTRE: Como preferires, desde que me trates por tu. [sorriso]

P: Montijo, Lisboa, Porto e Madrid em pouco tempo. Começaste ilegal, livraste-te da tropa e pisaste o risco. Foi uma vida alucinante?

PF: Alucinante não sei se é a palavra que melhor descreve a minha vida, percebes?…[pausa] Preenchida sim, ou com muitas situações assim… pouco normais, também. Se calhar com partes ou episódios incríveis, sim. Mas com períodos calmos. Não penses que tenho vivido em constante “alucinação”!

P: Polémico, rebelde e agitador por natureza, por gozo ou por necessidade?

PF: Quem me conhece sabe que sou sempre sincero, o que às vezes pode tornar-se uma bala contra mim. Sou impulsivo e defendo sempre aquilo em que acredito e algumas pessoas acham que chego a ser polémico mas sinto-me perfeitamente à vontade com isso. Tenho necessidade de ser sincero, isso sim.

P: Nunca quiseste ser politicamente correcto nem alinhado. Nunca tiveste empresário. Alguma vez houve o sentimento de que podia não dar certo?

PF: Houve uma altura muito difícil para mim e para a minha família que foi quando fui para o Porto. Tive uma série de meses sem ir a casa dos meus pais e todas as semanas aparecia uma janela partida, atiravam pedras à porta, era uma aflição. Sobretudo porque os meus pais não tinham culpa nenhuma do que se passou. E lembro-me que a situação era tão grave que quando voltei a casa no Natal até trouxe um guarda-costas. Foi tão duro para mim e para a minha família que sinceramente pensei que aquilo não era vida para mim. Mas depois tive a ajuda dos amigos e dos meus pais e ainda bem que encontrei forças para continuar…

P: Estiveste escondido e, num momento, ressurgiste e tornaste-te outra vez um fenómeno de popularidade. Sentias saudades dessa agitação?

PF: Isso depende um bocado do que consideras “agitação”. Porque desde que deixei de jogar futebol ainda não parei. Tenho trabalhado ligado ao futebol e a outras áreas e sempre com muita actividade. Agora, com muito menor exposição na imprensa do que, por exemplo, nos últimos meses. Mas a “agitação” tem cá estado sempre. [sorrisos]

P: Sem contar com a ligação pessoal a Dias Ferreira, o grande homem, valeu a pena ter entrado nas eleições do Sporting? O que ganhaste com isso?

PF: Claro que sim. Foi fundamental para mim poder apoiar o doutor [Dias Ferreira] e tentar ajudar o Sporting com os meus conhecimentos do mundo do futebol. Esperava, sinceramente, ganhar, apesar da diferença de orçamento da nossa candidatura para as outras. No final acho que o Sporting lucrou com a troca de ideias que um processo tão aceso trouxe. Em termos pessoais, o simples facto de ter considerado mudar a minha vida pelo projecto e regressar a Portugal também foi muito importante. Sinto uma ligação muito forte com nosso país e com as pessoas que me fazem sentir querido aqui.

P: Deixaste o país a rir depois daquela célebre conferência de imprensa. Muitos disseram que davas um bom humorista. Mas não era essa a intenção, pois não?

PF: Eu queria ser “badalado” e já todos perceberam a história da conferência e do chinês, que foi um grande sucesso. Tenho de agradecer aos sócios da net por isso, que ainda hoje me enviam muitos e-mailse mensagens no Facebook, a que aderi depois das eleições para estar mais próximo deles e devolver o carinho e o apoio que me têm dado. E o mais giro foi que alguns jornalistas e editores tiveram de retractar-se publicamente depois de perceberem que o mercado asiático é mesmo o futuro e devia ser o presente das grandes equipas portuguesas. Viste onde jogou o Real, o Manchester, o Chelsea nesta pré-época? Depois houve um outro grupo de pessoas que achou piada à forma como falo, que é assim uma mistura de português com espanhol porque vivi mais de metade da minha vida lá fora. Até os meus filhos e eu próprio nos rimos com isso.

Estas botas, estas maravilhosas botas, são as botas com que fui campeão europeu e é a olhar para elas que quero dizer que acabou a minha carreira desportiva. A notícia da despedida de Paulo Futre chegou com surpresa. E abalou o futebol internacional. Foi em 1996. Só que o futebol vive de momentos, paixões e impulsos. Porque o seu Atletichamou. Fê-lo despir o fato e voltar aos calções. Haverá maior prova de amor? Futre tinha chegado em 1988, como campeão europeu, maior desejo de Gil y Gil, bandeira eleitoral, ganhou espaço, tocou o céu e por lá ficou. Em Madrid, logo se tornou rei. Ou mais do que isso.

Paulo Jorge dos Santos Futre teve uma vida louca. E apressada. Nunca esperou pelo dia seguinte, agiu sempre quando pôde. Do Montijo até chegar ao topo, com o FC Porto, foi um piscar de olhos. Ser um fenómeno em Madrid, como é fácil de perceber, não demorou muito mais. Cerrou os dentes e entregou-se à luta. Quem é, afinal, Paulo Futre? Homem impulsivo, com espírito revolucionário, jogador genial e dirigente audaz? A pergunta é feita ao próprio. Solta uma gargalhada. “Fico muito satisfeito se alguém pensar isso de mim!”, diz. E sente-se feliz. Agora, abriu-se ao Mundo.

“O POVO TEM GRANDE CONSIDERAÇÃO POR MIM“
P: Disseste que quando os toureiros se retiram cortam a trança. Qual foi a maior faena?

PF: É verdade! E até cortei o cabelo quando me retirei definitivamente, para “cortar com o passado” e começar uma nova fase, sabes? Quanto à maior faena… há dois jogos que marcam a minha vida: a final contra o Bayern e a final da Copa do Rei com o Real. Partimos aquilo tudo. Inolvidável! [sorriso]

P: Saíste de Viena, em 1987, pela porta grande e em ombros. Foi aí que ganhaste estatuto internacional?

PF: Sem dúvida. A Europa passou a saber que eu existia e podia ser um caso sério no futebol.

P: Estas botas, estas maravilhosas botas, são as botas com que fui campeão europeu e é a olhar para elas que quero dizer que acabou a minha carreira desportiva. Mas, afinal, ainda continuou. Fizeste bem em regressar? Ou ficou arrependimento?

PF: Sabes que me arrependo pouco daquilo que fiz… Ou quase nada, até. Na altura voltei porque tinha de voltar, não havia nada a fazer. Naquela situação era impossível não voltar a jogar: com tanto apoio, tanto carinho e tanta pressão positiva dos adeptos, eu tinha mesmo de voltar. Além disso senti que o clube precisava de mim. E o Jesus [Gil y Gil]também. E apesar das dores e do sacrifício que fiz, foi uma sensação fantástica. Parece que renasci.

P: Saí por dinheiro e acho que tenho uma dívida. Não ter voltado ao Sporting, em 1993, marcou-te? Muitos sportinguistas não esquecem a ida para o Benfica…

PF: É, mas a grande maioria já sabe o que se passou. O presidente do Sporting na altura tinha tudo apalavrado comigo e à última hora fugiu. Depois apareceu o Jorge de Brito com um timing perfeito e convenceu-me a ir para o Benfica. Acho que os sportinguistas sabem o que se passou e não guardam tanto rancor assim.

P: Foste o melhor jogador português da tua geração?

PF: [risos] Isso é uma boa pergunta para os adeptos. Fui sem dúvida o primeiro a ter projecção internacional ao jogar no estrangeiro, mas havia grandes jogadores na nossa selecção, por isso…

P: Portugal ainda não reconheceu todo o teu talento?

PF: Às vezes perguntam-me se não tenho mágoa por isso. Mas sinceramente, os últimos meses têm provado o contrário. O reconhecimento das pessoas, os pedidos de autógrafos, os convites para convívios e mesmo para conferências sobre futebol, liderança e gestão de crise em empresas são o maior reconhecimento que podia ter. O povo tem uma grande consideração por mim, apesar de estar há vinte e quatro anos a viver em Espanha, o que é um orgulho enorme.

Entrevista retirada do blog Em Futeboles